por Natália Simões
A literatura, este direito inalienável – como apontou Antonio Cândido (1995) em “O direito à literatura” –, é uma possibilidade de experienciar outros mundos, um lugar de acolhimento à imaginação e a todos os sentimentos que chegam quando um livro se abre ao leitor. Durante as férias escolares das crianças, tempo precioso para desacelerar, experimentar novas brincadeiras e explorar outros espaços, a leitura é indispensável para o encontro com histórias, personagens, emoções e perguntas sobre o mundo. Escolher bons livros para esse momento é oferecer às crianças a possibilidade de refletir sobre si mesmas, sobre o outro e sobre a diversidade das tantas experiências de forma atenta, afetiva e sensível.
Aqui você encontra uma seleção de livros ilustrados que convidam à leitura compartilhada, à conversa e à imaginação.

A memória do bosque, de Sara Bertrand, com ilustrações de Elizabeth Builes, é um livro sobre medos e transformações, narrados de forma poética tanto no texto quanto nas ilustrações. A obra caminha pelas tessituras da relação entre mãe e filha diante das mudanças da vida, convidando as crianças a perceberem como a memória, natureza e o sentimento de pertencimento estão profundamente entrelaçados.


É uma leitura que acolhe silêncios, deslocamentos e medos da infância – aqueles que aparecem quando tudo muda e nos sentimos pequenos diante do mundo, diante do bosque. Ao tocar o desenraizamento e a busca por um lugar onde a vida possa acontecer e crescer, o livro se oferece como território de descobertas e escuta, no qual cada criança pode caminhar por seu próprio bosque.

Antonino Peregrino, de Osvaldo Costa Martins, com ilustrações de Luci Sacoleira, é um livro sobre caminhar e buscar sentido. Antonino é o personagem que apresenta a infância e a formação de Antônio Conselheiro, descrito como alguém que cresce entre perdas, deslocamentos e perguntas.


Ele surge como um menino atento ao mundo ao seu redor, marcado pela solidão, pela fome e pelas injustiças do sertão, e faz da andança uma forma de existência, aprendizado e escuta. A história transforma os caminhos pelo sertão em uma experiência sensível e poética, aproximando as crianças da história do Brasil por meio da memória e do olhar de quem aprende enquanto caminha.

Migrantes e Kintsugi, de Issa Watanabe, são livros-imagem que nos colocam diante de muitos silêncios: perdas, rupturas, deslocamentos forçados e os mais diversos arranjos para sobreviver.
Em Migrantes, a travessia de um grupo de animais por paisagens áridas e noturnas revela a experiência contemporânea da migração, em que o medo e a esperança caminham juntos numa mesma direção, e a solidariedade e companheirismo se tornam gestos essenciais.


Já Kintsugi parte da quebra – de vínculos, de corpos, de mundos – para acolher, tocar e recompor aquilo que permanece após a ruptura. Inspirado na técnica japonesa que valoriza as fissuras (金 kin = ouro | 継ぎ tsugi = emenda), o livro propõe uma leitura aberta e sensível, na qual as quebras, as cicatrizes, não são apagadas, mas sim reconhecidas como parte da história. São histórias que instauram um tempo de silêncio e escuta; um gesto ético de atenção às questões contemporâneas.

Não somos anjinhos, de Gusti, há uma narrativa sensível e bem-humorada que afirma as crianças em suas diversidades e rompe com visões idealizadas sobre a infância, especialmente em relação às crianças atípicas. O livro acompanha o cotidiano de um menino com Síndrome de Down, revelando emoções, conflitos, travessuras e distintos afetos que fazem parte da experiência de crescer. A história reconhece a diferença como parte da vida comum, questiona preconceitos e fortalece o exercício da empatia ao criar espaço para conversas sobre alteridade, convivência e respeito.


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