por Nilma Gonçalves
Um livro que nos escreve, uma língua carregada de memórias, uma literatura que insiste na esperança. Em um papo com Nilma Gonçalves, o autor Mário Lúcio Sousa fala sobre O livro que me escreveu, as travessias entre música e escrita, o encontro entre Cabo Verde e o Brasil e a leitura como gesto de humanidade.
'O livro que me escreveu' não é o seu primeiro livro lançado no Brasil. Quais foram os outros?
Antes de ‘O livro que me escreveu’, a Imã Editorial tinha lançado o livro ‘Biografia da língua’. Também foi lançado no Brasil o meu livro ‘Meu verbo cultura’ (Edufba), que é um livro de ensaios, pensamentos, discursos que eu fiz nas Nações Unidas enquanto ministro da Cultura, e as Nações Unidas acharam bem e contrataram a professora Cláudia Leitão, hoje secretária de Economias Criativas do Governo do Brasil, e ela fez esse trabalho de compilar todos os meus discursos, pensamentos, escritos sobre cultura.

Podemos dizer que a obra foi inspirada na história real de Gabriel García Márquez e sua esposa, Mercedes, na ocasião do envio dos originais de 'Cem anos de solidão' para uma editora?
Sim, o livro que me escreveu teve como mote, não é bem uma inspiração, mas despoletou quando eu estava lendo ‘Cem anos de solidão’ pela centésima vez e me perguntei o que seria da humanidade sem esse livro. E então nasceu uma ideia de escrever um livro que depois desaparece e também aproveitei para fazer uma homenagem a Garcia Marques contando a própria história verídica das peripécias, das aventuras que ele viveu para escrever esse livro grande da literatura universal, a fome que ele passou, as dificuldades para pagar o aluguel e os filhos e toda essa história e eu imaginei se isso tivesse acontecido com o livro dele.
A obra está sendo lançada pelo Selo Emília/ Editora Solisluna. Como essa parceria se deu?
Eu chego à Solisluna pela mão da Dolores Prades, do Selo Emília, que eu conheci em Madrid, num seminário. Ela conheceu a minha obra, se apaixonou, e nós falamos muito nesses dias sobre literaturas africanas, várias ideias, as novas versões de forma de contar, de ver o mundo, e ela levou o livro, então, para a Solisluna, e eu fiquei muito feliz com essa edição brasileira.
Na “versão” (se é que podemos chamar assim) de 'O livro que me escreveu' lançada no Brasil, você optou por manter a grafia original das palavras. Por que esta decisão?
Eu mantenho a grafia que eu aprendi na escola primária e sempre usei por uma questão de comunidade mas também é uma questão de filosofia porque nem essa grafia é suficiente para expressar a sonoridades que eu conheço nas minhas duas línguas, o criolo e o português, e então como eu uso muito crioulo como pensamento e até como ritmo e formas de elaborar frases, então, optei por escrever na grafia que eu sempre usei e eu explico isso também no livro a razão ela é filosófica ideológica e prática.

Como tem sido o retorno dos leitores, nesse sentido?
Sobre isso, eu já tinha previsto, porque nós lemos de várias formas, lemos com vários sentidos, lemos com vários saberes, eu tinha previsto que não iria haver reclamação, e na verdade nunca nenhum leitor me falou disso, pelo contrário, isso enriquece o modo de ler, enriquece o livro, enriquece o leitor, transporta o leitor para o outro mundo das sonoridades, de forma de concatenar as palavras, as sílabas, os tons, as sonoridades, e isso de certa forma é uma marca da minha literatura.
Como foi ter Pilar del Rio assinando o texto de apresentação?
A Pilar del Rio é uma amiga minha e ela adorou o livro, ela conheceu o livro em manuscrito e por isso, e nem foi eu não pedi, foi ela que ao ler o livro me escreveu e foi esse texto na íntegra que eu pedi autorização para usar no livro e ela é uma grande promotora desse livro, já ofereceu muitos exemplares a muita gente de vários lugares do mundo.
Quem assina a orelha é o músico brasileiro Chico César, com quem você se apresenta no Festival Giro Conecta, em Salvador. Como se deu essa parceria? Além de Chico César, você tem parcerias com nomes da música brasileira como Milton Nascimento, Gilberto Gil, Mariene de Castro, Orkestra Rumpilezz (estes últimos três baianos). Como nasceu seu interesse pela música brasileira?
Sim, na área da música, a minha primeira parceria foi com o Paulinho da Viola, que se deu pela parecência de personalidade, um pouco físico que a gente tem, e jornalistas provocaram isso. E a última participação foi com o Djavan, porque a música brasileira é, de certo modo, um espelho, ou um personagem frente ao espelho da música de Cabo Verde. E várias coisas que a gente tem em comum, e também pelo processo histórico da conformação dessas músicas. Então, eu me identifico, apesar de ser mais novo, com essa geração do MPB, e agora cruzo também com uma geração da minha idade, que é o caso de Chico César. Esse encontro se dá naturalmente, porque normalmente todos os músicos, os compositores principalmente e intérpretes colaboram. Em vários lugares do mundo, é uma grande tradição na América Latina, principalmente. E então se deu naturalmente com esses expoentes da música brasileira, que também fizeram parte da minha formação como músico, que eu ouvi desde a adolescência, e felizmente eles conheciam também, conhecem a minha obra, então essa aproximação foi normal, amistoso e ficou um caminho de amizade depois dessas gravações, até hoje, com o Gil, com o Paulinho, que a gente deu um tratamento de irmão, e também com o de Djavan, são encontros que depois produzem irmandades, reconhecimento mútuo.
Ser músico lhe ajuda a escrever ou ser escritor/poeta influencia na sua música?
Sim, eu até admiro os romancistas, os novelistas, que não são músicos nem poetas, eu seria incapaz de escrever se não fosse a poesia e a música. A poesia dá leveza à narração, dá poética, põe um certo veludo, mas também faz com que o mundo se expresse pelas suas próprias palavras e não só pelas palavras que o autor conhece. A poesia revela mundos para além do que a gente vê e transcreve. E a música é o que dá ritmo, eu percebo isso quando as pessoas leem os meus livros, eu também tenho o hábito de ler em voz alta e ter uma cadência musical africana muito forte. Se não é isso, há algum tropeço e isso não é bom na literatura, então isso marca muito a poesia. Cadência dos meus livros, que tem muita musicalidade na escrita e tem muita música também dentro da narração.
Produzir música e literatura são processos parecidos?
Não. Produzir música e literatura são processos completamente diferentes, são mundos muito diferentes. Eu prefiro o mundo da literatura, pessoalmente, para o meu estado de espírito, a minha solidão, para as minhas reflexões mais longas e profundas, e prefiro a música para a convivência, para o ato festivo. Escrever é presenteiro e sofredor e música, pra mim, é só festa. Os processos também são diferentes, porque na música eu não componho, a música baixa, eu faço um download cósmico, a música vem já com sua letra e sua melodia completa, e no tempo, cada música vem já pronta e depois é só vesti-la ou ajudá-la a se apresentar em diversos espaços. A literatura se constrói, a literatura tem muitas arestas. Principalmente, tem dois fôlegos tem um fôlego da escrita compulsiva, eu quando escrevo nunca volto atrás, não sei o que eu vou dizer no parágrafo seguinte e não me preocupo com as questões gramaticais ou outras. Digamos que é uma forma de produção bruta e deixar que tudo brote. E tudo brota mesmo e só depois é que há uma leitura, como se eu fosse um leitor novo e crítico e então eu gosto desse processo de ler uma obra desconhecida escrita por mim mesmo. E daí vem toda a postura de refinamento de como é que eu gostaria de ler qualquer obra de qualquer autor eu aplico isso a mim.

'O livro que me escreveu' tem uma belíssima mensagem de esperança e solidariedade, um alívio em meio a tempos de tanta desesperança. Acha que a humanidade tem jeito?
Olha, eu acho que a humanidade tem jeito e está governado por desajeitados, mas isso é cíclico. Eu percebo a evolução humana como uma espiral, não é linear, nem redondo, não é fechada, e nesse espiral tem um momento do círculo que as coisas progridem e tem outro momento que as coisas regridem e como o espiral é cíclico, quando passa por esse ponto, normalmente voltam a aparecer os medíocres, os mentecaptos, voltam a aparecer a demência, porque essas pessoas existem, estão lá, e até são elas que fazem a nossa luta ter sentido. Então, dentro do processo democrático, a nossa amizade é a nossa amizade. É combater essas facções de interesses, a literatura ajuda a compreensão, e eu sem me perceber, na verdade tem a ver muito com a minha natureza, todos meus livros têm uma mensagem de esperança na história, no discurso, tanto o autor como o narrador estão ali propondo uma conduta melhor, uma humanidade melhor, e uma das coisas é ler, lendo, e isso pode melhorar o mundo, porque o conhecimento mútuo, conhecimento do outro, sempre melhorou o mundo. A leitura também tem um papel importante sobre o nosso ego, conhecendo a dimensão de tudo, nós percebemos que somos uma ínfima parte, a níveis de leitura até que nos ajuda a. Cada ser humano que o outro mata está a matar a si próprio, porque nós somos parte do todo. Então, o caminho é a compreensão disso e a compreensão do sentido da vida e do sentido de si mesmo para entender que as ações que fazem mal, que perturbam, são ações contra o próprio indivíduo que o faz, com efeitos nefastos sobre outros seres humanos e outros seres vivos. A minha esperança no planeta, a minha esperança na humanidade é uma esperança normal, cotidiana, e faz parte da minha missão de vida.

O livro que me escreveu de Mário Lúcio Sousa foi editado no Brasil em Junho de 2025 fruto da parceria Selo Emília e Solisluna Editora.
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